“The Economic Impacts of Learning Losses” de Eric A. Hanushek e Ludger Woessmann e “Policy Brief: Education during COVID-19 and Beyond” de United Nations

Recensão por: Tânia Liberato

 

Hanushek, Eric A.; e Woessmann, Ludger (2020), The Economic Impacts of Learning Losses, OECD.

United Nations (2020), Policy Brief: Education during COVID-19 and Beyond.

 

Um dos aspetos mais negligenciados desde o abalo pandémico foi, precisamente, as soluções a longo-prazo para enfrentar a tremenda lacuna que se adivinha na educação das crianças e dos jovens em idade escolar.

Milhões de crianças e jovens a nível global viram-se privados do seu direito à Educação ou reduzido o seu tempo de estudo e de aprendizagem devido ao fecho de escolas. Apesar de hoje as prioridades dos Governos serem, evidentemente, outras – como a Economia e a Saúde –, parece haver uma desvalorização dos impactos reais da pandemia para a produtividade e o desempenho futuros do mercado de trabalho, prevendo-se que as perdas escolares se traduzam em perdas sociais e económicas.

Os relatórios Policy Brief: Education during COVID-19 and Beyond, lançado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em agosto de 2020 (referenciado enquanto United Nations, 2020), e The Economic Impacts of Learning Losses, lançado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) em setembro de 2020 (referenciado enquanto Hanushek e Woessmann, 2020), exprimem preocupações e avançam desafios e recomendações políticas para enfrentar as atuais disrupções no ensino, apoiando-se em dados da situação atual e previsões para traçar os cenários futuros de uma crise silenciosa e encoberta – a da Educação.

A OCDE faz uma projeção que incide nas questões económicas das perdas no ensino, prevendo que o PIB dos países possa diminuir na ordem de 1,5% ou mais até ao final do século e o típico estudante possa vir a sofrer um corte de 3% no rendimento esperado no mercado de trabalho se os sistemas de ensino não retomarem os níveis de desempenho anteriores à pandemia. Visto que as crianças e os jovens dedicam menos do seu tempo aos estudos, isso traduzir-se-á não só em menos conhecimento, mas também em menos competências adquiridas, o que significa que nos próximos anos teremos uma força de trabalho menos preparada e, por isso, menos produtiva.

A ONU, por outro lado, faz uma análise mais humana, global e integrativa das consequências no ensino, não dando importância somente ao lado económico por reconhecer o carácter multidimensional do problema. O panorama mundial da Educação anterior à COVID-19 já assinalava diferenças significativas entre o Norte Global e o Sul Global, que se irão estender ainda mais com a crise pandémica, pondo em causa a convergência conseguida nos níveis de ensino primário a nível global (UNDP, 2019). De facto, este retrocesso é inevitável tendo em conta os milhares de crianças e jovens que estão sem aulas e acompanhamento escolar, com especial atenção para os que não têm acesso a tecnologias e internet e que vivem em situações socioeconómicas desfavorecidas, agravadas pelos baixos níveis de escolaridade e de habilitações digitais dos pais. Esta realidade torna-se ainda mais crítica quando a escola é vista como um garante de refeições nutritivas, um espaço de interação social e de aquisição de competências socio-emocionais, reconhecido pela OCDE como um potencial desestabilizador económico, apesar de não ser um tópico aprofundado no seu relatório. Ademais, em certos contextos, muitas das crianças e jovens tornam-se vulneráveis ao trabalho infantil, ao casamento e gravidezes prematuros, à violência doméstica e de género.

As duas organizações reconhecem, por igual, a necessidade de repensar os sistemas de ensino, já que o “antigo status quo” (Hanushek e Woessmann, 2020: 11) não servirá para enfrentar os atuais desafios na Educação. Tanto a OCDE como a ONU defendem um sistema mais personalizado e flexível, focado nas necessidades e diferenças de cada um para extrair resultados mais promissores. Uma das questões mais óbvias para o conseguir passa por fornecer ao corpo docente uma formação orientada para as novas tecnologias, visto que muitos carecem das competências digitais necessárias para oferecer aos alunos uma experiência pedagógica de qualidade. A diversificação dos recursos e das metodologias de ensino utilizados é, assim, um dos pontos de partida. A OCDE propõe, inclusive, um sistema que aloque os seus recursos humanos de forma mais eficiente, distribuindo, por exemplo, os professores pelos contextos de sala de aula (digital ou presencial) em que o seu desempenho é mais frutífero para os alunos. Para além disso, a falta de monitorização por parte dos docentes impõe-se como obstáculo a uma avaliação efetiva do progresso dos alunos, escapando-se-lhes informações fulcrais para medir as perdas reais no ensino, principalmente entre os alunos com necessidades especiais ou os mais desfavorecidos economicamente.

Os relatórios da ONU e da OCDE revelam o efeito spillover da atual crise no ensino, apresentando números em gráficos e tabelas ilustrativos de uma situação que se desenrola diante de nós sem ser devidamente encarada. É inegável que a Educação é um dos garantes de mobilidade social, sendo vista como um investimento a longo-prazo e refletida numa melhor qualidade de vida, por sua vez medida no acesso a cuidados de saúde, alimentação, higiene, etc.. Embora não se sintam as consequências no imediato, as interrupções no ensino ameaçam seriamente o seu papel de elevador social e afastam as perspetivas de uma vida melhor para milhões de pessoas.

Referências bibliográficas

Hanushek, Eric A.; e Woessmann, Ludger (2020), The Economic Impacts of Learning Losses, OECD.

United Nations (2020), Policy Brief: Education during COVID-19 and Beyond.

United Nations Development Programme (2019), Beyond income, beyond averages, beyond today: Inequalities in human development in the 21st century.