Recensão por: Inês Baptista.

Artus, Patrick e Marie-Paule Virard (2010), Pourquoi il Faut Partager les Revenus. Le Seul Antidote à l’Appauvrissement Collectif, Paris, Éditions La Découverte.



A obra debruça-se sobre as consequências da crise económica e financeira no equilíbrio mundial, defendendo que se iniciou uma nova fase da globalização, com profundas alterações nas relações entre os países da OCDE e os países emergentes. Um novo modelo de redistribuição dos rendimentos e solidariedade no espaço europeu são apontadas como as soluções primordiais para evitar o “empobrecimento colectivo” nos países avançados.

Ao longo de sete capítulos os autores analisam as recentes mudanças a nível económico e financeiro, registadas a partir da crise de 2007-2009. O foco analítico recai, principalmente, sobre as alterações no equilíbrio das relações entre países avançados e países emergentes. A partir de 2009 verificam-se fortes assimetrias entre as economias destes países, nomeadamente no que respeita ao seu potencial de crescimento, reflectido no consumo interno e nas exportações. Os autores defendem que os países emergentes têm, a partir desta altura, cada vez menos necessidade dos países avançados. Isto acontece porque as economias dos primeiros são continuamente mais capazes de satisfazer a procura interna, diminuindo fortemente as importações (com origem nos países da OCDE). Por outro lado, os países emergentes têm vindo a conquistar parcelas cada vez mais amplas do mercado mundial, com o aumento das exportações acompanhado pelo alargamento do tipo de bens que produzem. A China, por exemplo, tornou-se, em 2009, o maior exportador mundial, detendo 12% do comércio à escala planetária. Ao mesmo tempo, a Europa e os EUA enfrentam uma grave crise económica e financeira, confrontando-se, a longo prazo, com sobreendividamento e taxas muito ténues de crescimento.

Neste cenário, os autores defendem que os países da OCDE têm necessidade de incentivar a procura interna sem criar ilusões acerca da possibilidade de existência de ajuda exterior – é aqui dado como exemplo o caso da Grécia e a polémica da atribuição de ajuda financeira comunitária. Assim, dado o decréscimo contínuo das exportações para os países emergentes e a improbabilidade da solidariedade internacional, os países ficam dependentes deles próprios para enfrentarem as consequências da crise. Para os autores, a modificação da distribuição de rendimentos é essencial para a saída da situação de crise. Os salários devem ser então beneficiados, em detrimento dos lucros, repensando a estrutura fiscal, para que sejam abolidas as taxas exageradamente elevadas sobre os salários e exageradamente baixas sobre os rendimentos de capital. Reduções nos salários, são, portanto, entendidas como contraproducentes numa altura em que é fulcral incrementar a procura e o consumo. É necessário, por isso, reflectir sobre soluções inovadoras, capazes de inflectir a distribuição dos redimentos em favor dos sálarios, ou seja, em favor daqueles que consomem e aumentam a procura interna.

Nos primeiros dois capítulos são abordadas as mudanças nas relações comerciais entre os países emergentes e os países avançados, que os autores sintetizam no conceito de “desglobalização”. Este não significa, de todo, o fim da abertura financeira e económica entre os países, muito menos o surgimento de uma vaga proteccionista em termos das relações de mercado. Este conceito exprime, pelo contrário, uma situação na qual as trocas comerciais internacionais se tornam menos dinâmicas do que no período anterior à crise: no início de 2008 as exportações mundiais representavam perto de 32% do PIB mundial, valor que desceu para cerca de 22% no final do primeiro semestre de 2009.

Os autores identificam, então, duas dinâmicas deste fenómeno de “desglobalização”: a industrial e a financeira. A primeira diz respeito à substituição, registada nos países emergentes, das importações (com origem nos países da OCDE) pela produção interna, o que permite a poupança e a acumulação de reservas de capital. Este processo de substituição é favorecido tanto pelo avanço tecnológico do tipo de bens produzidos, como pelos baixos custos de produção que se mantêm nestes países emergentes. A esta “desglobalização” industrial acresce a “desglobalização” financeira, ou seja, a forte quebra nos lucros obtidos pelos países da OCDE através das exportações que estes realizavam para os países emergentes.

Uma conjugação da “desglobalização” real e da “desglobalização” financeira significaria que cada região do mundo apenas poderia contar com as suas reservas e poupanças para financiar o seu crescimento (e estas são bastante fracas em alguns países da OCDE). O aumento do défice, defendem os autores, agrava ainda mais este cenário. De facto, não só o crescimento dos países emergentes será pouco benéfico para os países da OCDE, como deteriorará, inclusivé, a sua situação económica através da diminuição de exportações, do aumento dos preços das matérias primas e do decréscimo do consumo nos países da OCDE, provocado pelo desemprego e pela diminuição salarial.

Neste contexto, os autores identificam como ameaças que pesam sobre os países da OCDE: o risco do surgimento de uma dinâmica deflacionista; a contínua perda de quotas de mercado mundial, em benefício dos países emergentes; o enfraquecimento das exportações com destino a esses países; e ausência de cooperação entre países da OCDE.

No terceiro capítulo é analisada, precisamente, a ameaça que os autores consideram mais perigosa para a economia dos países mais avançados: o “síndrome” japonês, ou seja, uma situação de deflacção/estagnação económica muito prolongada. São aliás identificados indícios na situação económica e financeira da Europa e dos Estados Unidos semelhantes aos registados no Japão, aquando do início da crise, há duas décadas atrás. É claramente referido que as dinâmicas internas de cada país, construídas através de instrumentos de política económica ao serviço do crescimento e do emprego são a solução mais indicada para afastar este “fantasma” japonês.

O quatro capítulo debruça-se sobre as políticas económicas postas em prática pelos países da OCDE para fazer face à crise. Os autores destacam que os os planos de relançamento da economia foram de tal forma fortes que o crescimento se fez, de facto, sentir a partir do segundo semestre de 2009, mas a duração destes efeitos é bastante questionável. No fundo, as autoridades políticas e financeiras arriscam-se a ficarem “desarmadas” e sem alternativas perante um crescimento que se caracteriza pela sua contínua debilidade e que parece ser a base de um cenário que se está a instalar a longo prazo nas economias desenvolvidas.

Os últimos três capítulos reforçam o imperativo da solidariedade e da redistribuição dos rendimentos como “antídotos” para o empobrecimento colectivo. Os países da OCDE necessitam, assim, de criar uma solidaridade e cooperação consolidadas, num novo modelo caracterizado pela criação de empregos qualificados como fomento para o crescimento, pelo surgimento de novos sectores que absorvam as perdas de emprego dos sectores tradicionais e pela avaliação e distribuição de rendimentos pautada pelos interesses comunitários a longo prazo. A União Europeia necessita, segundo os autores, de mecanismos estabilizadores que permitam absorver os choques da assimetria verificada nas várias economias que a constituem. Será necessário encontrar formas de tornar compatíveis os interesses nacionais e o bem comunitário, visto que estes estão, no fundo, intimamente relacionados no que respeita ao desenvolvimento da economia.

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