Recensão por: Sara Franco da Silva

 

Carmo, Renato Miguel do e Maria Madalena d’Avelar (2020), A Miséria do Tempo: Vidas Suspensas pelo Desemprego, Lisboa, Tinta da China.

 

Nas sociedades contemporâneas, a exclusão do mercado de trabalho é um dos fatores de intensificação de desvantagens, desigualdades e fragilização das condições de participação e de reconhecimento social. O estudo em referência dá-nos conta de experiências enquadradas nesses processos, através da análise do desemprego. Aqui abordado como um fenómeno multidimensional com consequências que ultrapassam a privação material e económica, com efeitos devastadores nas formas como se vive e organiza o dia-a-dia, nas perspetivas de futuro que se constroem, na saúde física e mental dos indivíduos, bem como nas dinâmicas domésticas que se estabelecem. Indo além dos indicadores estatísticos institucionais, esta obra aprofunda, a partir da realidade concreta dos indivíduos, os múltiplos significados que os mesmos atribuem à vivência de desemprego.

Este livro é publicado no âmbito de um projeto de investigação mais alargado[1] e integra uma série de estudos que têm como pano de fundo o contexto de globalização e de intensa desregulamentação e flexibilização das relações de trabalho, agravado nas suas consequências pela crise económica e financeira internacional. A partir de uma perspetiva sociológica das desigualdades sociais, o livro apresenta um conjunto diversificado de testemunhos que dão conta dos impactos das dinâmicas de proliferação de uma sociedade do mal-estar, incerteza e insegurança nas vivências e experiências de grupos populacionais caracterizados por situações de alta vulnerabilidade social e económica. A sua leitura permite-nos diferentes olhares sobre a forma como os segmentos sociais fortemente afetados pelas dinâmicas macroeconómicas de instabilidade e mal-estar – pessoas em situação de desemprego ou em condições precárias, com baixas qualificações e em idades avançadas – experienciam os seus modos de vida, organizam o seu dia-a-dia e que perspetivas constroem em relação ao futuro.

Os autores Renato Miguel do Carmo e Maria Madalena d’Avelar partem do conceito de “miséria do mundo” de Pierre Bourdieu (1993) para captar as perceções e os sentimentos de mal-estar vivenciados pelos desempregados, os quais tendem a acumular “pequenas misérias” ao longo das suas trajetórias. Para além da vulnerabilidade económica relacionada com a perda do emprego (muitas vezes associada à pobreza), este segmento assiste ainda à desestruturação das suas rotinas diárias, vivendo numa situação de permanente instabilidade. São assinalados dois processos centrais enfrentados pelos desempregados: o processo de “desqualificação social” (Paugam, 2003), vivenciado quando os indivíduos assistem à mudança de uma situação marcada por alguma estabilidade para uma situação inferior à que conheciam anteriormente; e o processo de “desfiliação” (Castel, 2000), que identifica situações sociais que se caracterizam, em simultâneo, pela insuficiência de recursos materiais e pela fragilização dos laços e relações sociais.

A noção de “tempo social” assume uma centralidade elevada na problematização teórica desenvolvida. Os autores apoiam-se no conceito para entender a forma como os desempregados, confrontados com processos de desestruturação do seu quotidiano ou de “paragem forçada”, vivenciam e organizam o tempo: como vivem o seu dia-a-dia e como perspetivam o tempo prolongado, em termos de perspetivas e planos em relação ao futuro. O conceito de “tempo social” é complexo e multidimensional, tendo sido, por isso, mobilizado um conjunto de autores para a sua problematização na procura de identificação das dimensões estruturais que atravessam as experiências e perceções em relação a diferentes tipos de temporalidades. A esse propósito são referenciados os trabalhos de Harvey (1989) e de Castells (2003), que apontam os impactos dos avanços tecnológicos e da sociedade em rede nas vivências do quotidiano; referem-se os processos característicos das sociedades modernas de “aceleração social”, associados à “compressão temporal” dos processos sociais a partir da noção de Hartmut Rosa (2013); e, ainda, o desequilíbrio entre o tempo dedicado à família e ao trabalho e o consequente risco da “unidimensionalidade da vida social e individual”, com referência à obra de Marcuse (1964).

Com recurso aos testemunhos dos próprios indivíduos, e tendo como fonte empírica 46 entrevistas semiestruturadas dirigidas a pessoas em situação de desemprego, é adotada uma abordagem sociológica assente numa orientação metodológica de carácter qualitativo, que procura ir além das análises estatísticas mais comuns e compreender as perceções, experiências e vivências dos desempregados. Esta orientação metodológica tornou possível a decifração sistemática do sentido que os indivíduos atribuem às suas experiências intersubjetivas, captando com profundidade as interpretações e significados multidimensionais que constroem acerca da sua realidade concreta.

A diversidade da amostra foi garantida relativamente à distribuição etária, género, nível de escolaridade, alguma dispersão territorial (AML e AMP), bem como no que diz respeito à multiplicidade das próprias situações de desemprego experienciadas pelos indivíduos. É de sublinhar a orientação analítica em abranger na noção de desemprego uma diversidade de situações, como a de pessoas em situação de subemprego ou desempregados “entre” empregos, normalmente excluídos do campo analítico e empírico das pesquisas que se debruçam sobre o fenómeno, com recurso exclusivo aos indicadores estatísticos tradicionais – indo além das definições institucionais produzidas pelo INE.

Através da estratégia metodológica adotada, esta pesquisa permitiu captar a multiplicidade de experiências e de significados que os indivíduos numa situação de “paragem forçada” vivenciam, como consequência do fenómeno do desemprego. Emergiram formas bastante diversas de experienciar o “tempo social” e que remetem para diferentes situações de vulnerabilidade social. Tornaram-se evidentes, através dos discursos dos entrevistados, os efeitos das diferentes situações de desemprego na relação que passaram a estabelecer com o tempo quotidiano (tempo in actum) e com o tempo futuro/tempo enquanto percurso (tempo iter), tendo sido identificados quatro perfis temporais: destituição (desemprego introduz destruturação do dia-a-dia e a perceção de um futuro sem rumo); ocupação (apesar de o dia-a-dia continuar estruturado, existe a incapacidade de construir perspetivas de futuro); adiamento (desemprego provoca a desestruturação do quotidiano, mas existe a criação de perspetivas e esperanças face ao futuro); reconstrução (existe a capacidade de criação de novas rotinas diárias, bem como de construir projetos de futuro).

Para além dos resultados encontrados ao nível da multiplicidade dos efeitos do desemprego na organização do dia-a-dia ou na projeção de planos para o futuro, surgem ainda efeitos ao nível da relação que se passa a estabelecer com o espaço doméstico, muitas vezes associado a uma prisão; mas também os efeitos associados a tendências de isolamento e de depressão, com consequências sérias no bem-estar físico e mental destes indivíduos; é notória a importância do papel que os apoios sociais têm numa vivência do desemprego com menores sentimentos de incerteza e de insegurança; ou as perspetivas que se constroem acerca do “outro”. As entrevistas realizadas permitiram ainda a construção de um conjunto de retratos sociológicos de pessoas em situações de desemprego (pertencentes a cada um dos perfis de desemprego identificados), tendo como referência o dispositivo teórico-metodológico proposto por Lahire (2004). A partir dos discursos na primeira pessoa, acedeu-se não só às dimensões objetivas que caracterizam esses percursos, mas também às perceções subjetivas que os sujeitos constroem. Colocando a enfâse substantiva nas perceções e experiências dos indivíduos, foi possível captar as variações nas suas interpretações, nos seus comportamentos e modos de viver o desemprego. Esta variação entre atitudes, experiências e perceções é bastante evidente quando se aborda a relação que os entrevistados estabelecem com o tempo social, sendo possível encontrar diferentes perfis de temporalidade vivida. A “variação social” dos comportamentos individuais (Lahire, 2004) seria difícil de alcançar com recurso a uma metodologia de carácter quantitativo baseada no uso exclusivo de indicadores estatísticos.

É ainda de salientar o carácter inovador da publicação que conta com o lançamento de um webdocumentário “Demasiado novo para ser velho”[2] que incide sobre as histórias de quatro pessoas em idades avançadas (mais de 55 anos) que vivenciam experiências de invisibilização, “na margem da sociedade”. Este procura dar “voz” aos indivíduos que experienciam estas situações de angústia e vulnerabilidade social.

Adicionalmente, sublinha-se o facto de esta obra adotar um registo de escrita bastante acessível a públicos diversos, não estando circunscrita à academia. Trata-se, pois, de uma obra que permite a partilha de informação que poderá ser lida de forma acessível pelo público em geral, que pode ser aproveitada para fins pedagógicos ou ainda como referência empírica e analítica para outras investigações científicas.

Por fim, é importante sublinhar a relevância da publicação deste livro no decorrer da situação da crise social resultante da pandemia da Covid-19 .  Com a pandemia e consequente suspensão de uma grande parte das atividades económicas e sociais, assistiu-se à proliferação de sentimentos de mal-estar e de incerteza nas sociedades. De acordo com o relatório do Eurofound (2020), no contexto europeu, uma parte significativa da população assistiu à deterioração das suas condições materiais de existência, com a perda de recursos financeiros: multiplicaram-se as situações de pessoas que perderam o emprego ou foram colocadas em layoff ou tiveram os seus contratos de trabalho suspensos ou não renovados. As pessoas mais afetadas por estas dinâmicas são as que à partida já acumulavam situações prévias de vulnerabilidade social e económica (trabalhos precários e com baixas qualificações).  Os retratos apresentados neste livro facilitam novas perspetivas sobre a complexidade subjacente à situação de grande fragilidade económica, e aos seus impactos significativos nas diferentes esferas de participação na vida social. Adicionalmente, podemos ainda relembrar que uma parte significativa da população passou a trabalhar a partir de casa (teletrabalho). Todas estas dinâmicas alteraram de forma repentina e estruturante as formas como se trabalha, como se vivencia o espaço doméstico, como se organiza o tempo quotidiano.

O livro traz reflexões muito pertinentes acerca destas dinâmicas que se colocam de novo com alguma acuidade na nossa “nova” realidade, chamando a atenção clara para a importância de políticas públicas que consigam alcançar pessoas em situações de maior vulnerabilidade.

 

Referências bibliográficas

Bourdieu, P. (Coord.) (1993). A Miséria do Mundo. Petrópolis: Editora Vozes.

Castel, R. (2000). The Roads to Disaffiliation: Insecure Work and Vulnerable Relationships. International Journal of Urban and Regional Research, 24, 519-535.

Castells, M. (2003). A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura. Vol. II, O Poder da Identidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Eurofound (2020). Living, working and COVID-19. COVID-19 series. Luxembourg: Publications Office of the European Union.

Harvey, D. (1989). The Condition of Postmodernity: An Enquiry into the Origins of Cultural Change. Wiley-Blackwell.

Lahire, B. (2004). Retratos Sociológicos. Disposições e variações individuais; trad. Patrícia Chittoni Ramos Reuillard e Didier Martin. Porto Alegre: Artmed.

Marcuse, H. ([1964] 2012). O Homem Unidimensional – Sobre a ideologia da sociedade industrial avançada. Lisboa: Letra Li.

Paugam, S. (2003 [1991]). Desqualificação Social: Ensaio Sobre a Nova Pobreza. Porto: Porto Editora.

Rosa, H. (2013) (2005). Social Acceleration: A New Theory of Modernity. New York: Columbia University Press.

 

[1] EmployALL – A crise do emprego e o Estado Social em Portugal: deter a produção de vulnerabilidades sociais e de desigualdades. Projeto coordenado por Renato Miguel do Carmo, em curso no CIES-Iscte. Instituições parceiras: CES-Universidade de Coimbra, IDEFF e ICS-Universidade de Lisboa.

 

[2] Disponível em https://www.demasiadonovoparaservelho.pt/

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