O indicador At Risk of Poverty or Social Exclusion (AROPE), traduzido como “risco de pobreza ou exclusão social”, constitui a principal medida utilizada pela União Europeia para monitorizar situações de vulnerabilidade socioeconómica. O indicador integra três dimensões complementares: o risco de pobreza monetária, a privação material e social severa e a baixa intensidade laboral. Considera-se em risco de pobreza ou exclusão social qualquer pessoa que se encontre em pelo menos uma destas situações.
A relevância deste indicador decorre da sua capacidade para captar diferentes formas de vulnerabilidade económica e social, permitindo uma análise mais abrangente da pobreza do que aquela proporcionada apenas pelo rendimento monetário. Neste sentido, o AROPE assume particular importância no acompanhamento das metas definidas pela Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, em especial do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 1 (Erradicar a Pobreza), bem como do Pilar Europeu dos Direitos Sociais.
A presente análise examina a evolução do indicador em Portugal entre 2016 e 2025, comparando-o com os restantes países da União Europeia (27) e explora as desigualdades associadas ao sexo, à faixa etária e ao nível de escolaridade. Por fim, procede-se à decomposição das três dimensões constitutivas do AROPE, com o objetivo de identificar os principais mecanismos associados ao risco de pobreza e exclusão social na sociedade portuguesa.
Através da Figura 1 é possível verificar que Portugal apresenta em 2025 uma taxa de risco de pobreza ou exclusão social de 18,6%, posicionando-se em 11.º lugar entre os 29 países analisados. Este resultado coloca o país numa posição mais favorável do que a média da União Europeia, situada nos 20,9%, sugerindo um desempenho relativamente positivo no contexto europeu. Ainda assim, Portugal permanece distante dos países que registam os níveis mais baixos de pobreza e exclusão social.
A análise comparativa evidencia uma forte heterogeneidade entre os países europeus. No extremo mais favorável encontra-se a Chéquia, onde apenas 11,5% da população se encontra em risco de pobreza ou exclusão social. Seguem-se países como a Eslovénia, os Países Baixos e a Polónia, que também apresentam valores significativamente inferiores à média europeia. Em contraste, os níveis mais elevados observam-se na Turquia (29,8%), Bulgária, Roménia e Grécia, países onde mais de um quarto da população permanece em situação de vulnerabilidade socioeconómica.
A distância entre a Chéquia e a Turquia atinge 18,3 pontos percentuais, revelando diferenças muito expressivas nas condições de vida e nos níveis de proteção social existentes entre os países europeus. Comparativamente, Portugal encontra-se 7,1 p.p. acima da Chéquia, mas 11,2 p.p. abaixo da Turquia, posicionando-se num grupo intermédio de países com níveis de pobreza e exclusão social moderados.
Importa ainda notar que o valor português permanece próximo de um quinto da população residente. Isto significa que, apesar da posição relativamente favorável no contexto europeu, cerca de uma em cada cinco pessoas continua exposta a pelo menos uma das dimensões que compõem o indicador AROPE. Assim, o posicionamento de Portugal no ranking europeu não elimina a relevância social do fenómeno nem a necessidade de continuar a desenvolver políticas orientadas para a redução da pobreza e da exclusão social.
A taxa de risco de pobreza ou exclusão social apresenta uma trajetória globalmente descendente tanto em Portugal como na União Europeia ao longo do período analisado (ver documento Excel no final da página). Em Portugal, o indicador passa de 24,9% em 2016 para 18,6% em 2025, correspondendo a uma redução de 6,3 pontos percentuais (p.p.). Na União Europeia, a descida é menos expressiva, passando de 23,7% para 20,9%, o que representa uma redução de apenas 2,8 p.p.. Estes resultados sugerem uma evolução relativamente mais favorável em Portugal, que conseguiu reduzir o risco de pobreza ou exclusão social a um ritmo superior ao da média europeia.
A análise da série revela ainda uma alteração da posição relativa portuguesa face à média da União Europeia. Em 2016, Portugal apresentava um valor superior ao europeu (24,9% face a 23,7%), mas a diferença foi diminuindo progressivamente até ao cruzamento das duas séries em 2019. A partir desse momento, Portugal passa a registar valores inferiores à média da UE27, evidenciando uma melhoria relativa da sua posição no contexto europeu.
Contudo, esta trajetória é interrompida durante o período pandémico. Em 2021, Portugal regista uma subida significativa do indicador, passando de 20,0% para 22,4%, enquanto a média europeia aumenta apenas ligeiramente, de 21,5% para 21,7%. Este agravamento temporário sugere uma maior vulnerabilidade da população portuguesa aos impactos socioeconómicos da pandemia, refletindo dificuldades acrescidas na proteção dos grupos mais expostos ao risco de pobreza e exclusão social durante o período de crise.
Nos anos seguintes, observa-se uma recuperação gradual e consistente. Entre 2021 e 2025, a taxa AROPE em Portugal diminui de 22,4% para 18,6%, atingindo o valor mais baixo de toda a série. Esta redução permite consolidar uma posição mais favorável face à média europeia, que em 2025 se situa nos 20,9%.
A desagregação do indicador AROPE por sexo permite identificar diferenças de vulnerabilidade socioeconómica entre homens e mulheres. Esta dimensão é particularmente relevante porque a pobreza e a exclusão social não afetam todos os grupos da mesma forma, sendo frequentemente influenciadas por desigualdades de género associadas ao emprego, aos rendimentos e às responsabilidades familiares e de cuidado.
Como se pode verificar através da Figura 2, as mulheres apresentam ao longo de toda a série valores de risco de pobreza ou exclusão social superiores aos dos homens. Em 2016, a taxa AROPE situava-se em 26,2% entre as mulheres e em 23,5% entre os homens, correspondendo a uma diferença de 2,7 pontos percentuais (p.p.), a mais elevada observada em toda a série. Este resultado evidencia uma maior exposição feminina à vulnerabilidade socioeconómica no início do período analisado.
Ao longo da década, ambos os grupos registam uma trajetória globalmente descendente. Entre 2016 e 2025, o indicador diminui 6,5 p.p. entre as mulheres, passando de 26,2% para 19,7%, enquanto entre os homens a redução é de 6,2 p.p., descendo de 23,5% para 17,3%. Esta evolução revela uma melhoria muito semelhante entre os dois grupos, sugerindo que os progressos registados na redução da pobreza e da exclusão social beneficiaram homens e mulheres de forma relativamente equilibrada.
A pandemia constitui, contudo, um momento de interrupção temporária desta tendência. Em 2021, o indicador aumenta para ambos os sexos, atingindo 23,5% entre as mulheres e 21,2% entre os homens. Apesar deste agravamento, a diferença entre homens e mulheres mantém-se relativamente estável, não se observando um aumento significativo das desigualdades de género durante este período.
Importa ainda destacar a evolução da distância entre os dois grupos. Depois de atingir 2,7 p.p. em 2016, a diferença diminui progressivamente ao longo da série, alcançando o valor mais reduzido em 2023, quando se fixa em apenas 1,7 p.p.. Este resultado sugere uma ligeira aproximação entre homens e mulheres no que respeita ao risco de pobreza ou exclusão social, ainda que sem eliminar a desigualdade existente.
Em 2025, a taxa AROPE situa-se em 19,7% entre as mulheres e em 17,3% entre os homens, correspondendo a uma diferença de 2,4 p.p.. Assim, apesar da melhoria generalizada observada ao longo da década, as mulheres continuam a apresentar níveis mais elevados de vulnerabilidade socioeconómica.
Em termos substantivos, o gráfico sugere que as desigualdades de género associadas ao risco de pobreza e exclusão social persistem em Portugal, embora sem sinais de agravamento ao longo da série analisada. A redução gradual da distância entre homens e mulheres indica uma ligeira convergência entre os dois grupos, mas a permanência de valores sistematicamente superiores entre a população feminina evidencia a continuidade de fatores estruturais de desigualdade que continuam a afetar as condições de vida das mulheres.
A análise do AROPE por grupo etário permite compreender de que forma o risco de pobreza ou exclusão social varia ao longo do ciclo de vida. Como se pode verificar através da Figura 3, todos os grupos etários registam uma redução do risco de pobreza ou exclusão social entre 2016 e 2025, embora com intensidades diferentes. Em 2016, os valores mais elevados observavam-se entre a população dos 50 aos 64 anos (29,5%), dos 18 aos 24 anos (27,8%) e dos menores de 18 anos (27,5%). Em contraste, os grupos dos 25 aos 49 anos (21,9%) e dos 65 ou mais anos (22,2%) apresentavam níveis relativamente mais baixos de vulnerabilidade.
Ao longo da série, verifica-se uma descida generalizada do indicador (ver documento Excel no final da página). A redução mais expressiva ocorre entre a população dos 50 aos 64 anos, cuja taxa AROPE diminui de 29,5% em 2016 para 20,4% em 2025, correspondendo a uma redução de 9,1 pontos percentuais (p.p.). Esta é a maior descida observada entre todos os grupos etários, sugerindo uma melhoria significativa das condições socioeconómicas da população em idade pré-reforma.
Também os jovens entre os 18 e os 24 anos registam uma redução importante, passando de 27,8% para 21,0% (-6,8 p.p.). Contudo, apesar desta melhoria, continuam a integrar o grupo mais vulnerável em 2025. Este resultado sugere a persistência de dificuldades associadas à entrada no mercado de trabalho, à instabilidade laboral e à autonomia económica dos jovens adultos.
A evolução da população com 65 ou mais anos merece particular destaque. Embora este grupo apresentasse em 2016 valores relativamente inferiores aos observados entre os jovens e a população dos 50 aos 64 anos, a redução ao longo da série foi bastante limitada, passando apenas de 22,2% para 20,8%, o que corresponde a uma diminuição de apenas 1,4 p.p., a menor entre todos os grupos etários analisados. Em consequência, os idosos passam a integrar, em 2025, o conjunto dos grupos com níveis mais elevados de risco de pobreza ou exclusão social.
Em 2025, os valores mais elevados observam-se precisamente entre os jovens dos 18 aos 24 anos (21,0%), a população com 65 ou mais anos (20,8%) e os indivíduos dos 50 aos 64 anos (20,4%). Por sua vez, o grupo dos 25 aos 49 anos continua a apresentar o valor mais reduzido da série, fixando-se em 14,7%, o que reforça a ideia de uma maior proteção relativa durante a fase central da vida ativa.
Em termos gerais, o gráfico evidencia que o risco de pobreza ou exclusão social continua fortemente associado à idade. Embora se observe uma melhoria generalizada ao longo da década, os jovens adultos e a população idosa permanecem entre os grupos mais vulneráveis. A permanência de níveis elevados entre as pessoas com 65 ou mais anos assume particular relevância no contexto português, marcado por um acentuado envelhecimento demográfico.
A Figura 4 evidencia uma relação clara e consistente entre escolaridade e risco de pobreza ou exclusão social ao longo de toda a série analisada. Em todos os anos, a população com níveis de escolaridade mais baixos apresenta valores substancialmente superiores aos observados entre a população com ensino superior. Em 2016, a taxa AROPE situava-se em 31,4% entre as pessoas com escolaridade correspondente aos níveis básico ou inferior, contrastando com 17,3% entre os níveis preparatório e secundário e apenas 7,9% entre o ensino superior.
Entre 2016 e 2025, observa-se uma redução do indicador nos três grupos educativos. A descida mais expressiva verifica-se entre a população com escolaridade baixa, cuja taxa diminui de 31,4% para 26,0%, correspondendo a uma redução de 5,4 pontos percentuais (p.p.). Nos níveis intermédios, o indicador passa de 17,3% para 15,5% (-1,8 p.p.), enquanto entre a população com ensino superior a descida é mais reduzida, de 7,9% para 6,8% (-1,1 p.p.).
Apesar desta evolução favorável, as diferenças entre níveis educativos permanecem muito acentuadas. Em 2025, a população com escolaridade baixa apresenta uma taxa de risco de pobreza ou exclusão social de 26,0%, valor quase quatro vezes superior ao observado entre as pessoas com ensino superior (6,8%). A diferença entre estes dois grupos atinge 19,2 p.p., evidenciando a persistência de desigualdades estruturais associadas à educação.
Tal como observado noutros indicadores, o período pandémico corresponde a uma interrupção temporária da tendência de melhoria. Em 2021, todos os níveis educativos registam um agravamento do AROPE. Entre a população com escolaridade baixa, a taxa aumenta de 27,0% para 30,4%, correspondendo a uma subida de 3,4 p.p.. Nos níveis intermédios, o aumento é de 3,8 p.p., passando de 14,8% para 18,6%, enquanto entre a população com ensino superior a taxa sobe de 6,4% para 8,7%. Apesar deste agravamento generalizado, a estrutura das desigualdades mantém-se praticamente inalterada.
Importa ainda destacar que a distância entre grupos educativos revela uma estabilidade notável ao longo da década. Embora todos os níveis de escolaridade tenham beneficiado da redução global da pobreza e exclusão social, a posição relativa de cada grupo permanece praticamente inalterada: quanto mais elevado o nível de escolaridade, menor o risco de pobreza ou exclusão social.
O indicador é composto por três dimensões: o risco de pobreza monetária, a privação material e social severa e a baixa intensidade laboral. A análise conjunta destas componentes permite perceber se a vulnerabilidade social resulta sobretudo da insuficiência de rendimento, de dificuldades materiais concretas ou de uma fraca ligação ao mercado de trabalho.
Como se pode verificar através da Figura 5, o risco de pobreza monetária é, ao longo de toda a série, a dimensão mais expressiva do AROPE em Portugal. Em 2016, esta componente atingia 19,0%, valor mais do dobro do observado na baixa intensidade laboral (8,5%) e também bastante superior à privação material e social severa (9,1%). Esta diferença evidencia que, no caso português, a insuficiência de rendimento constitui o principal mecanismo de exposição à pobreza e exclusão social.
Entre 2016 e 2020, as três dimensões registam uma tendência de redução. O risco de pobreza monetária diminui de 19,0% para 16,2%, correspondendo a uma descida de 2,8 pontos percentuais (p.p.). A privação material e social severa reduz-se de 9,1% para 5,4%, uma descida de 3,7 p.p., enquanto a baixa intensidade laboral passa de 8,5% para 5,0%, menos 3,5 p.p.. Esta evolução sugere uma melhoria simultânea dos rendimentos, das condições materiais de vida e da integração laboral no período anterior à pandemia.
Em 2021, observa-se um agravamento nas três componentes, embora com intensidades diferentes. A subida mais expressiva ocorre no risco de pobreza monetária, que aumenta de 16,2% para 18,4%, correspondendo a mais 2,2 p.p.. A privação material e social severa aumenta de forma mais moderada, de 5,4% para 6,0%, enquanto a baixa intensidade laboral sobe apenas de 5,0% para 5,3%. Estes dados sugerem que o impacto pandémico se fez sentir sobretudo ao nível do rendimento, mais do que nas formas severas de privação ou na componente laboral.
Nos anos seguintes, as trajetórias tornam-se mais diferenciadas. A privação material e social severa mantém uma tendência descendente relativamente consistente, atingindo 4,3% em 2024 e 2025, o valor mais baixo da série. A baixa intensidade laboral apresenta maior instabilidade: aumenta até 6,3% em 2023, antes de descer para 4,8% em 2024 e estabilizar em 4,9% em 2025. Já o risco de pobreza monetária, apesar de também diminuir no final da série, mantém-se claramente acima das restantes dimensões, fixando-se em 15,4% em 2025.
Comparando o início e o fim da série, a privação material e social severa é a dimensão que mais diminui, passando de 9,1% para 4,3%, o que corresponde a uma redução de 4,8 p.p.. O risco de pobreza monetária e a baixa intensidade laboral registam ambas uma descida de 3,6 p.p. entre 2016 e 2025. Ainda assim, em 2025, a pobreza monetária continua a ser mais de três vezes superior à privação material e social severa (15,4% face a 4,3%), evidenciando a persistência do rendimento como dimensão central da vulnerabilidade social em Portugal.
Desta forma, o gráfico demonstra que a pobreza e a exclusão social em Portugal têm uma natureza multidimensional, mas não homogénea. A melhoria das condições materiais e da ligação ao mercado de trabalho foi relevante ao longo da década, mas a pobreza monetária permanece como a dimensão mais persistente e estrutural.
Nota metodológica
Os dados utilizados neste indicador provêm do inquérito europeu EU-SILC (European Union Statistics on Income and Living Conditions), disponibilizado pelo Eurostat. O presente indicador considera a população em risco de pobreza ou exclusão social quando esta se encontra em pelo menos uma de três situações: risco de pobreza monetária, privação material e social severa ou residência em agregados familiares com baixa intensidade laboral. Na componente da baixa intensidade laboral, a população de referência corresponde ao grupo dos 0 aos 64 anos, de acordo com a metodologia do Eurostat.
Importa salientar que, a partir de 2021, o indicador de privação material severa foi substituído pelo indicador de privação material e social severa (Severe Material and Social Deprivation), no âmbito da revisão metodológica do EU-SILC e da implementação do Regulamento (UE) 2019/1700. Esta alteração implicou mudanças nos itens considerados e pode afetar parcialmente a comparabilidade direta com anos anteriores.
Os dados referem-se a Portugal e foram extraídos do Eurostat em junho de 2026.
Elaborado por Marta Gentil.

