A desigualdade de rendimentos mundial acompanha níveis desiguais de emissões de carbono.

  

O relatório Climate Change & the global inequality of carbon emissions, 1990-2020 (Chancel, 2021) e o relatório síntese da Oxfam Carbon Inequality in 2030, Per capita consumption emissions and the 1.5ºC goal, com base na análise por parte do Instituto para a Política Ambiental Europeia (IEEP) e do Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), vêm recentemente evidenciar as desigualdades nas emissões de dióxido de carbono a nível mundial. Ambos os relatórios revelam que a desigualdade global na emissão per capita deve-se a acentuadas desigualdades na média de emissões entre países (ou regiões) e também devido a desigualdades mais expressivas nas emissões dentro de cada país (ou regiões).

 

Os relatórios distinguem-se em duas componentes de análise: (i) Chancel (2021) concentra-se nas desigualdades de carbono entre 1990 e 2020, e a Oxfam (2021) foca-se na evolução entre 1990 e 2015 e as estimativas para 2030, ano até ao qual se deve alcançar os objetivos determinados no Acordo de Paris; (ii) utilizam regiões e países diferentes: Chancel considera na análise 8 regiões (África Subsariana; Sul e Sudeste Asiático; América Latina; Médio Oriente e Norte da África; Ásia Oriental; Europa; Rússia e Ásia Central e América do Norte); e na síntese feita pela Oxfam são discriminadas 5 regiões geográficas, das quais quatro são países (India, Europa, Estados Unidos da América, China e Reino Unido). A medida principal utilizada em ambos os relatórios é emissões de carbono (ou CO2) per capita, construídas de forma similar, mas com diferenças que devem ser consultadas nos respetivos relatórios.

 

A nível global, Chancel (2021) refere que em 2019 o top 10% de emissores globais eram responsáveis por cerca de 48% das emissões globais de CO2, sendo que 1% deste top era responsável por 17%. Os 50% inferiores apenas emitiam cerca de 12%.

 

Numa comparação entre os níveis de emissões correntes e as emissões necessárias para ficar abaixo de um aquecimento global médio de 1,5ºC, verifica-se que todas as regiões têm uma média de emissões de carbono superiores à meta. Apena o Sul e Sudeste da Ásia e a África Subsariana têm uma média de emissões inferior a 2ºC. 

 

Ambos os relatórios comprovam que, entre regiões, a desigualdade da média de emissões de carbono é próxima das desigualdades de rendimentos médios. Afirmam assim que existe uma relação, parcialmente direta, entre o rendimento per capita e as emissões. Não é totalmente direto porque certas regiões são mais eficazes do que outras em limitar as emissões associadas a um determinado nível de rendimento.

 

A nível mundial, 10% da população é responsável por quase metade das emissões de carbono: em 2019 – 1% mais ricos (16,8%), 10% mais ricos (47,6%), 40% classe média[1] (40,4%) e 50% mais pobres (12,0%). No relatório da Oxfam a conclusão é a mesma, com valores idênticos, e acrescenta ainda que esta divisão se mantém desde 1990. Destacam-se ainda três factos:

(i) As emissões do 1% da população mundial mais rica têm aumentado: de 13% em 1990 para 15% em 2015 e estima-se que em 2030 alcançará os 16%.

(ii) É estimado que a classe média global, os restantes 40% superiores, seja o único grupo a registar uma inversão até 2030 no sentido de ir ao encontro aos objetivos do Acordo de Paris – não aumentar o aquecimento global em mais do 1,5ºC – apesar de continuar longe (-57%).

(iii) Os 50% inferior, correspondentes à população mais pobre, são os únicos que continuam longe de exceder a meta mencionada (233%).

 

Em 1990, a desigualdade mundial de carbono devia-se a diferenças entre os países: o cidadão comum de um país rico poluía claramente mais do que o resto dos cidadãos do mundo. Atualmente as desigualdades de emissões dentro do país explicam dois terços das desigualdades globais.

 

Neste plano, importa distinguir duas formas de desigualdades, que subjazem às desigualdades mundiais identificadas. Primeiro, entre as regiões do mundo, as emissoras de uma maior quantidade de CO2 são as regiões de rendimento elevado e médio. Segundo, dentro de cada região ou país, os principais emissores de CO2 são os 10% mais ricos, seguidos da classe média e, por fim, com menores emissões os 50% mais pobres.

 

Todos países emissores revelam uma pegada de carbono acima do nível global per capita objetivo para 2030 – 1.5ºC. Complementarmente, são os 10% e 1% mais ricos nacionalmente que, conjuntamente, têm uma emissão de CO2 per capita substancialmente acima do consumo necessário para alcançar o nível proposto nos Acordos de Paris. No geral, apenas os 50% mais pobres da população da África Subsariana e do Sudeste Asiático têm um consumo per capita abaixo dos 1,5ºC; quando consideradas as emissões de CO2 necessárias para um aquecimento global médiode 2ºC, apenas a metade inferior (50% mais pobres) da população em cada região está abaixo ou perto do limite.

 

As desigualdades de carbono dentro das regiões são mais acentuadas do que entre elas. Como mencionado previamente, os valores de 2019 demonstram que em todas as regiões os 10% mais ricos são os maiores emissores de CO2, particularmente na América do Norte (73,0), Sul e Sudeste da Ásia (38,9), Rússia e Ásia Central (35,1), MENA (33,6) e Europa (29,2). Com menores níveis de emissões dos 10% mais ricos estão: a América Latina (19,2), Ásia Oriental (10,6) e África Subsariana (7,3). No que diz respeito às emissões de carbono dos 40% de classe média e dos 50% mais pobres, verifica-se que os valores mais elevados são da América do Norte e da Europa. Estas regiões são as responsáveis por cerca de metade das emissões de carbono desde a Revolução Industrial.

 

Na Europa, os níveis de emissões de metade da população mais pobre que estão próximos dos objetivos climáticos per capita 2030 são o Reino Unido, a Alemanha e a França.

 

No entanto, como evidenciado no relatório da Oxfam, no que diz respeito às emissões da população mais rica do mundo, as estimativas apontam que a China deverá ultrapassar os EUA em 2030 (respetivamente, de 14% para 23% e de 37% para 19%) e a India a Europa (respetivamente, de 5% para 11% e de 11% para 4%). São mudanças que refletem o aumento dos cidadãos dos países de rendimento médio entre os mais ricos do mundo, e o ritmo lento da redução das emissões desses países relativamente aos países /regiões de rendimento elevado.

 

De acordo com o relatório da Oxfam, importa ainda evidenciar que em muitos países de rendimento elevado, as emissões per capita da metade mais pobre da população diminuíram desde 1990, contrariamente aos 10% mais ricos. Estes é esperado que em 2030 tenham emissões per capita substancialmente mais elevadas do que a média global do nível per capita compatível com a meta de 1,5ºC.

 

Importa uma nota final sobre a diferença entre as métricas pegada de carbono e emissões territorias: esta última não conta com os bens e serviços importados, foca-se apenas no produzido no país ou região em questão. Esta métrica é usalmente utilizada pelos governos, mas subcontabiliza as emissões de CO2 pelo facto de países com rendimento mais elevados poderem reduzir as emissões territorias através de estratégias investimento em indústrias noutras partes do mundo, e, por sua vez, importando os bens e serviços produzidos.

 

 

[1] A denominada classe média diz respeito aos 40% de população mais rica a seguir aos 10% do topo.

 

Elaborado por: Ana Filipa Cândido

 

 

 

 

 

 

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